09 Novembro 2009

Chega a idade

Chega a idade e o sangue solta os cavalos
Em direcção ao fim da pele, sem preocupações
Metafísicas ou filosóficas e chega a hora de perder
A inocência, chega a hora de conhecer tudo
E tirar a lama que nos cobria os olhos da infância.
O amor, nestes casos, é a última das preocupações
- é preciso um corpo para tirar o peso do corpo novo
e só sobre o branco dos lençóis e que depois consiga
tentar preencher os dias... Se não o preencher também
não há problema: há toda uma vida à espera e milhares
de outras possibilidades de experimentação – há muito
que o corpo deixou de pertencer apenas a uma só pessoa.

A verdade é esta

Desde que me fiz homem e comecei a compreender
A engrenagem que sou numa vasta máquina
Incompreensível que me alimentam o estômago
E os bolsos vazios de promessas ou pão duro.
Há negócios a ganhar e não há espaço para contemplar
A amizade cega para o trabalho gratuito, para o tempo
Perdido nas vagas promessas e pedidos concretos,
Para os problemas digestivos por amor à arte
- se amor for aquela cegueira ou loucura que nos confunde
A economia. Eu sei que isto não interessa nem pouco
Nem nada e as horas preenchidas na teimosia de fazer
As coisas correctas valem como boas intenções sem sentido
Prático. A garganta arranhada com todo pão e promessas
Dados já não consegue nem falar para explicar a situação
Do corpo e das regras que o contém: não há como escapar
Da organização social e resta-nos ficar cada vez mais semelhantes
À idade do corpo, do número que nos deram para nome.
Nesta era do vazio somos a letra miúda do contrato lavrado
Para maior conveniência de quem oferece o serviço e,
Depois de tudo terminado, abrimos a camisa
No final de mais um dia de trabalho num gesto de débil revolta,
Causa e expressão da nossa juventude perdida. Envelhecer é isto:
Perder a fé nas crenças ou acabar ainda mais agarrados
A elas e ao peso das decisões impossíveis sem a voz egoísta
        - a verdade é esta.

23 Outubro 2009

O MacCain, a Mãe caída e uma diária de 75 euros

Se me permitem, vou fugir um pouco do âmbito já de si lato deste blog e vou transcrever verbatim um artigo que vinha no site TVI24. Foi consultado dia 23 de Outubro de 2009 às 3:46 da manhã. Falantes de inglês preparem-se. This is going to be tough!

"Roberta McCain suffer accident in Lisbon
Mother of senator John McCain is in an hospital in Portugal



Mother of the Republican nominee for the presidency of USA is hospitalized in the Hospital S. José in Lisbon, Portugal

Roberta Wright McCain, mother of the Republican nominee for president in the 2008 United States election, was hospitalized at the Hospital São José in Lisbon this Tuesday afternoon, acknowledge tvi24.pt.

Roberta Wright McCain, 97, was taken by INEM, an emergency national service, to this hospital at 7:26 pm, local time in Lisbon, due to a fall in one of the streets in the downtown. She was found lined on the ground but her condition is not serious, according to hospital sources.

Tvi24.pt knows that Roberta McCain is hurt in her head and face, and for moments suffered amnesia. After an electrocardiogram and a x-ray she stayed for the night in the hospital.

Tvi24.pt also knows that Roberta McCain is hosted at Hotel Borges which is located in Lisbon downtown where she check-in around 16:00 pm (local time in Lisbon). According to sources of Hotel Borges the reservation for one night was made online and Roberta McCain, 97, arrived alone.

Senator McCain was informed by tvi24.pt about this accident. The mother of Arizona senator is very well known in USA for her vitality and for her love for travelling."

O artigo pode ser consultado aqui 

De notar que desta notícia está ausente um pormenor que vem na notícia em português: o Hotel Borges tem apenas duas estrelas e uma diária de 75 euros... e que a senhora estava hospedada no quarto 202... Nenhum destes pormenores teria muita importância se não soubessemos que John MacCain, segundo este artigo, declarou "little more wealth than when he started in politics. With his book royalties and radio-appearance fees donated to charity, McCain's Senate salary of $169,300 and Navy pension of about $56,000 are his only significant sources of income. He has accounts at two banks with his wife worth up to $15,000 each, according to his most recent financial disclosure report". Pode não ser muito, mas já podia pagar um hotelzito melhor à mãe.

21 Outubro 2009

Bon voyage!

Finalmente iguais sob a mesma desgraça

Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí, a mexer nesse pó
De gesso e a abrir buracos nos tectos das casas para chegar ao céu
E o entubar até às paredes respiratórias. No desencontro
Desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro e voltar
A pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole. Sabes
Que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso, nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.
Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

20 Outubro 2009

Pergunta-te

Pergunta-te:
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública, 
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou? 
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo? 
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear 
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem, 
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi? 
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem 
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador 
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar 
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã? 
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber 
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar, 
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas 
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo 
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:

terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?

 e lembra-te das respostas.

17 Outubro 2009

Sei que outros serão teus

Então, já aqui chegamos: tu forçando a cena
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude. 

Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.

13 Outubro 2009

O som para hoje

De regresso a um passado de que não fizemos parte - mas não deixa de ser engraçado

Horas vazias

Senta-se vazio atrás de uma chávena
Vazia sobre uma mesa que, não fosse
A chávena e o homem, estaria vazia. Lê
O horizonte predial com os olhos agitados
E indecifráveis, atento às vibrações do ar.

Portanto, o homem vazio atrás da chavena
Vazia olha o vazio e sente-o. Até aqui nada
Se passa excepto as horas marcadas pelas
Cervejas e o correr simples da caneta e
O alheamento de quem não pertence ao mundo.

Um vulto magro chega, altivo sob o mercúrio
Das luzes da nossa noite e ilumina outros olhos.
Afinal, o homem vazio sentado atrás da chávena
Vazia esperava a sua incerta substância.

Casal a uma mesa de restaurante romântica e devidamente iluminada por velas

O bolso produz a carteira com um passe de mão.
Certeira, encontra uma nota... depois outra.
Setenta euros pagam a conta e ainda trazem
troco. Depois, permanecem silenciosos à mesa,
Bebendo o vinho demasiado caro
E vendo as velas a derreter.

O livro

abre-me como se eu fosse feito de páginas
soltas que só a estranheza da cola industrial
aglutinou e tornou uno. abre-me com o gume
afiado do x-acto, recupera a minha individualidade;
as estranhas palavras que tenho para oferecer
e, quem sabe,
talvez baralhes quem eu sou até ser algo novo.

12 Outubro 2009

A machadada na vida social

Infinite down

07 Outubro 2009

Temos a agradecer à televisão

Nunca nos podemos esquecer
Do quanto temos a agradecer à televisão:
Graças a ela, e a quem a controla, julgamos
Conhecer o mundo, julgamos saber a ciência
Que nos move ordeiramente pelo espaço e tempo;
Julgamos conhecer o súbtil perfume da realidade.
Vejam só que hoje, num programa aprovado
Em concelho de administradores, soube e apreendi
Que há peixes criados em viveiros que são vacinados
Para não levarem bactérias e outras doenças às nossas
Delicadas e civilizadas bocas. Quanto às pessoas que vi
Noutro programa (e que morrem todos os dias como percevejos
Que não são economicamente viáveis para crescer em viveiros
Controlados) não sei se existem mesmo... devem estar a enganar-me.
Com certeza já foram testadas e vacinadas para não matarem
De doenças quem se alimenta da fraqueza da sua carne.

Sou apenas um entre muitos

Sou apenas um, entre muitos que te atravessaram
Sem deixar uma marca nos dias que eram passados
A olhar os cádaveres da civilização a inchar sob o sol.

Agora só resta esperar que tudo isto seja um sonho e que,
um dia, se reencontrem os passos; os ecos uniformes das vozes
Na magnética procura do rumo perdido,
Ou desencontrado, sem bússola ou mapa,
        Nós todos perdidos de facto,
Sem meios ou um significado maior para esta viagem.

Depois de tanto tempo, as tatuagens já se afundaram na pele
Como um carcinoma de fantasmas, como uma rotina tóxica
Em que se ressuscitam os fantasmas e o corpo entediado
Onde existimos - escapando com milhares de mensagens
Inúteis que nos resumem aos olhos dos outros. A história,
E a sua cicatriz, é curta e indiferente como uma dança com o demónio.

Hoje vou viver. Amanhã,
Já nada restará entre as cinzas frias do contentamento.

04 Outubro 2009



a blast from the past

03 Outubro 2009

Pés descalços


Contra todas as expectativas animais crescemos
Sobre a areia do tempo. Do nada ganhamos a forma
Da pele e a luz da mente e durante séculos retiramos
O sustento das árvores da terra e do ocasional sangue.
Se olharmos bem agora, como ossos, palavras
Despontam das ruínas e é nelas que ferimos os pés
Descalços por tão longa e vaga caminhada de história
Devorada pela mesma terra que nos alimentou.

Nesta paisagem de dentes, metálicos edifícios
Mudos e instáveis crescem frágeis como nós
Com as nossas doenças psicológicas, com o nosso soro
Mediático para a insónia e para a solidão.
O céu é da televisão e para as telecomunicações
De tempos de paz e de guerra e é um mar onde ondas
Magnéticas, radiofónicas, ultrasónicas politraumáticas
Tratam de nós e nos dão um significado para viver
Mais um dia, apenas mais um dia é tudo o que preciso.

Depois de milénios a passar fome e a contar
Os trocos vamos aproveitar agora e devorar
Até à inconsciência ruminante. Não esquecer:
Uma fila única; pedir tudo o que as cores anunciantes
Dizem ao cérebro que traduz para a gula que pede mais
Do que deseja; pagar contando os trocos; comer olhando
Em volta da zona de alimentação em fórmica vendo bem
Quem vive nas jaulas ao lado da tua; despejar o tabuleiro
Individual e desinfectado e colocar sobre os outros;
Sair gordo e com fome, pronto para ser abatido.

Agora no exterior, mas ainda dentro de uma jaula,
São estes pés que nos movem em linhas paralelas
Onde nos vemos sem ponto fixo algum na recta
Para o encontro. Estamos há muito fechados, selvagens
Domésticos que perderam a compreensão do espaço
         Aberto
Longe das fronteiras impostas por outros corpos.

02 Outubro 2009

Quando as noites são um empréstimo

Quando as noites são um empréstimo
a cobrar noutras noites

é isto que temos: ruas plenas de pessoas
orquestrando o seu ruído - nada; a leveza
de um ombro livre para chorar as desilusões
e um mundo a prazo onde nos deixam viver.

30 Setembro 2009

Ali estava ela

E ali estava ela:
Sustida pela balaustrada
Inoxidável da pastelaria.
E era assim que ela estava:
O sol cobrindo de luz o rosto
Bissectado pela sombra da paragem;
O gesso da mão esquerda rezando nervoso
Sobre o calor da direita e o seu afagar distraído;
O cabelo negro de alguma idade e oleoso, cortado;
A roupa, velha como ela gasta. Quando a aproximação
Se concretiza e os olhos falam a outros olhos, ela olha a sombra
Do horizonte turvo pelas lágrimas fáceis dos velhos.
Porque é que ela chorava?
Não sei... não lhe perguntei e segui caminho.

As ferramentas da corrupção

A cerveja e o fumo;
A mesa plana
        Como um mapa;
O aquoso turbilhão da folha;
As ocasionais companhias
        Duvidosas
- Eis, alinhadas, as ferramentas
        Da corrupção.

29 Setembro 2009

O terceiro excluído

Os triângulos são formas
Socialmente impraticáveis:
Entre a soma dos dois catetos
E o comprimento da hipotenusa
Não há nenhum teorema capaz
De estabelecer uma relação.
O quadrado desta bizarra soma
É o trapézio traçado a giz no quadro
Negro, primário, onde se jogam
As somas de dois com o comprimento
De uma fina linha traçada, improvável,
A branco. Vendo bem a raíz quadrada
De todo este problema está no resultado:
Que é sempre zero.

O meu ouro

O meu ouro
Tem sempre o brilho
Característico,
Constante,
Do latão.

28 Setembro 2009

Morphine



obrigado daniel pela dica musical!

Há que fazer escolhas

A escolha entre a felicidade e o futuro
É o equilíbrio impossível da balança.
Compreendam esta imagem: os braços
São sempre pequenos demais para encerrar
Tudo o que se quer e há pessoas que tiram
O mundo de dentro de carteiras de bom corte,
Da pele moldada por outras mãos sem sangue
- não é mau de todo: nos intervalos do trabalho
Temos a televisão, o ruminar bovino das refeições
Enquanto aprendemos a pensar e a sentir, as horas
Desperdiçadas a criar riqueza para outras mãos
Mais hábeis e educadas na arte da distribuição...
E somos livres... não nos podemos esquecer.

Mas há que fazer escolhas:
E enquanto umas nos conduzem a fatos
Cortados à medida e a alvos punhos de camisas,
Outras conduzem-nos à servidão massificada
Das lojas de venda a retalho. A caverna, hoje,
São as paredes do shopping e o que nos cega
São os dedos assépticos das lojistas sem idade,
A publicidade sexualizada e a ditadura da marca.

Quando ser único é um luxo que custa comprar,
Acredita que te podes tornar uma pessoa
- se tiveres a roupa certa para o ser.

27 Setembro 2009

Domingo