Então, já aqui chegamos: tu forçando a cena
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude.
Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.