25 Novembro 2009

Porque nos faltou tempo

Que faremos mais para suportar o vazio? Onde encontrar
As muletas para a depressão que nos traz mancos?
Música, trabalho, drogas, mais trabalho e umas palavras
Escritas sem nenhum significado palpável. Ninguém nos ensinou
A sentir; ninguém nos disse como usar as mãos para o amor: as ruas
Apanharam-nos primeiro e ensinaram-nos que vacilões caem
E que os dedos foram feitos para a trapaça. Tudo isto desaparecerá? 
- para que tudo volte a ser pleno como a infância e a sua cegueira.
É uma pena, mas o amor está podre e é preciso construir sobre ele, 
Sempre, um novo começo, um novo dia – porto de partida para longe
Dos fantasmas de todos os homens e do primeiro homem
Que fui, eu, já desaparecido e morto. Há uma pergunta que se impõe,
Que se tem de gritar: Porque é que ninguém me salvou?
Para onde foram todos, e tu especialmente... Olhando para trás,
Agora, parece que nunca atravessaste o meu corpo e nada me resta
Senão as mãos vazias. Quero escrever e não consigo; quero
Fotografar e não sei o que escolher, para onde olhar, como
Transfigurar o mundo visível. Nenhum livro ou música ou pessoa
Nos diz nada já... eles também não sabem como aguentar isto
E há muito tempo que já não vejo televisão para saber como me salvar
- Além do mais não teria como, sem dinheiro que não cresce
Nas árvores; não sem mãos para a jardinagem económica.
A lição a tirar destes tempos é esta: aprende a esquecer; esquece tudo
Isto, todas as palavras incompletas: eu não existo, nem alguma vez cheguei
A ser apenas uma excepção. Mas sim, sem dúvidas, esquece tudo
Isto; esquece-me porque estou morto e foi o mundo que me comeu;
Foram as horas certas que me mataram; foi o corpo, o meu corpo repetido
Até ao excesso de peso que nos fez esquecer quem fomos, o que eramos
Até que apenas restou uma frágil pele a unir este esqueleto.
Agora, resta-nos esta fome que nos come por dentro, este calor
Que nos devora as memórias e os gritos e as palavras ditas
- Tudo aquilo que poderíamos ter sido e nunca fomos
Porque nos faltou tempo.

O que fui e o que sou

Tornei-me nada. Não passo de umas moléculas em fuga,
De um corpo esvaindo o seu conteúdo para as ruas.
Ao contrário do que se acreditava, afinal de contas,
Foi bem fácil passar ao lado de tudo e apagado.

18 Novembro 2009

És o que és e aparentas ser

És o que és e aparentas ser, sem engano, 
Da cabeça aos pés - ou talvez sejas mais
E sob ti se esconda todo o terror do mundo.
Da camisa salmão ao cinto de couro entrançado
Tentas projectar a imagem certa do sucesso
Que conheces e te disseram que era correcto.
O sapato de vela é o toque desportivo no teu
Andar pressuroso, andar de quem tem (e pensa)
Em algo mais importante do que quem atropela;
O lenço, tão in nas únicas revistas que lês e conheces,
É o teu próprio ponto final esvoaçante e cheio de graça 
- gentilmente fornecido pelos grandes armazéns 
Onde perdes dias a escolher-te, a pintar a tua fantasia. 
Com tudo o que escrevi, e apesar de todo o dinheiro 
Que gastaste, continuas a valer menos de nada, 
Mas vestes bem - e isso sempre representou algo. 

16 Novembro 2009

Who scared you

The cars hiss by my window




Hey tiago! Aí os carros passam sob a janela? :D

Little Red Rooster







09 Novembro 2009

Chega a idade

I

Chega a idade e o sangue solta os cavalos
Em direcção ao fim da pele, sem preocupações
Metafísicas ou filosóficas chega a hora de perder
A inocência, chega a hora de conhecer tudo
E tirar a lama que cobria os olhos da infância.
O amor, nestes casos, é a última das preocupações
- é preciso um corpo para tirar o peso do corpo novo
E só sobre o branco dos lençóis; um corpo que depois
Consiga tentar preencher os dias... Se não o preencher,
O corpo ou os dias, também não há problema:
Há uma vida à espera e milhares  de outras possibilidades
De experimentação – há muito que o corpo já não pertence
        Apenas a uma só pessoa.

II

Há um dia, então, em que nos descobrimos olhando
Sem que o espelho responda o nosso rosto, os caminhos
Familiares dos nossos traços, da história da face, e
Perguntamo-nos para onde fomos - quem é aquele
Que nos olha do outro lado da compreensão? Nesse dia,
Então, reconhecemos a estória da nossa descoberta,
Enfrentamos os nossos olhos factuais e sabemos
Que precisamos de outros que nos contem as verdades
De outros mundos e melhores horas. Outro dia então,
Depois de já termos completado as muitas horas que nos
Toma o trabalho, esse milagre assassino, damos por nós
Sentados num sofá a uma sexta à noite, esperando e
Temendo que a espera não chegue para completar
O teu regresso, que talvez o amor, só, não chegue
Para enfrentar o mundo e os incertos planos esboçados
Sobre o sonho. Neste dia, então, o medo devora o cadáver
Em que o corpo se tornou, e então compreendes
Que nenhum corpo mais conseguirá preencher o vazio.

III

Quando os dias terminarem nos teus olhos cegos aí sim,
Será tarde demais para voltar atrás e recuperar o tempo
Perdido. Passaram anos e os rastos desapareceram;
As pistas dos cheiros foram levadas pela chuva ou
Por um comercial de uma empresa de comunicações,
Vendendo proximidade e melhores serviços a preços módicos
E sacrificando todas as memórias esquecidas dependentes
De uma sequência aleatória de números. Ficaste tu, só, tu
Apenas e mais ninguém cravejando os dias com preocupações
E das mãos retirando todo o sustento e paciência para levar
O sol de um ponto ao outro do firmamento. Até que um dia
Acordas e perdeste o corpo e a vista e passam dias sem que vejas
Ninguém e não sentes a passagem das horas no ar parado
Do quarto cinzento onde perdeste a memória de melhores dias,
Esses de quando ainda trazias um sorriso na algibeira, a magia
De uma moeda que trocavas por um beijo nos dias dos dias
Quentes. Mais tarde, para matar a solidão, muitas vezes, percorrias
As ruas com um maço de notas na algibeira, pronto a entrega-lo
À entrada das pernas de uma puta que te agradasse; outras vezes
Ias para os jardins jogar à sueca, esquecer nas cartas o jogo
Que o teu corpo já não consegue jogar. O corpo esqueceu o corpo
E o sexo agora é um apêndice flácido, inútil como tu
Que perdeste a mulher e a utilidade e agora vives pedindo
Ao mundo um espaço emprestado. Mais vezes do que confessas
Quando te apanham distraído acariciando as cartas nos dedos,
Retardando a jogada que tanto pode ser a mão tirânica que cai
Estrondosamente sobre a mesa ou a displicente que atira a carta
De longe, imaginas como poderia ter sido se uma mulher te tivesse
Escolhido, como teria sido se alguém te resistisse aos dedos
Destruidores, às palavras confusas e às dores humanas. Agora
Que vais ou te preparas e és o último com o teu nome recordas
A juventude desprevenida e inocente, incapaz de falar claramente
O nome que descobriste depois em dias mais longos, na luta
Pelo sustento que te roubou a vida. Recordas sim, mas este recordar
Não é viver: é ressuscitar da tua morte quando os olhos se fecham,
Uma última vez, e sabes que vais sozinho e anónimo, sem lágrimas.

A verdade é esta

Desde que me fiz homem e comecei a compreender
A engrenagem que sou numa vasta máquina
Incompreensível que me alimentam o estômago
E os bolsos vazios de promessas ou pão duro.
Há negócios a ganhar e não há espaço para contemplar
A amizade cega para o trabalho gratuito, para o tempo
Perdido nas vagas promessas e pedidos concretos,
Para os problemas digestivos por amor à arte
- se amor for aquela cegueira ou loucura que nos confunde
A economia. Eu sei que isto não interessa nem pouco
Nem nada e as horas preenchidas na teimosia de fazer
As coisas correctas valem como boas intenções sem sentido
Prático. A garganta arranhada com todo pão e promessas
Dados já não consegue nem falar para explicar a situação
Do corpo e das regras que o contém: não há como escapar
Da organização social e resta-nos ficar cada vez mais semelhantes
À idade do corpo, do número que nos deram para nome.
Nesta era do vazio somos a letra miúda do contrato lavrado
Para maior conveniência de quem oferece o serviço e,
Depois de tudo terminado, abrimos a camisa
No final de mais um dia de trabalho num gesto de débil revolta,
Causa e expressão da nossa juventude perdida. Envelhecer é isto:
Perder a fé nas crenças ou acabar ainda mais agarrados
A elas e ao peso das decisões impossíveis sem a voz egoísta
        - a verdade é esta.

23 Outubro 2009

O MacCain, a Mãe caída e uma diária de 75 euros

Se me permitem, vou fugir um pouco do âmbito já de si lato deste blog e vou transcrever verbatim um artigo que vinha no site TVI24. Foi consultado dia 23 de Outubro de 2009 às 3:46 da manhã. Falantes de inglês preparem-se. This is going to be tough!

"Roberta McCain suffer accident in Lisbon
Mother of senator John McCain is in an hospital in Portugal



Mother of the Republican nominee for the presidency of USA is hospitalized in the Hospital S. José in Lisbon, Portugal

Roberta Wright McCain, mother of the Republican nominee for president in the 2008 United States election, was hospitalized at the Hospital São José in Lisbon this Tuesday afternoon, acknowledge tvi24.pt.

Roberta Wright McCain, 97, was taken by INEM, an emergency national service, to this hospital at 7:26 pm, local time in Lisbon, due to a fall in one of the streets in the downtown. She was found lined on the ground but her condition is not serious, according to hospital sources.

Tvi24.pt knows that Roberta McCain is hurt in her head and face, and for moments suffered amnesia. After an electrocardiogram and a x-ray she stayed for the night in the hospital.

Tvi24.pt also knows that Roberta McCain is hosted at Hotel Borges which is located in Lisbon downtown where she check-in around 16:00 pm (local time in Lisbon). According to sources of Hotel Borges the reservation for one night was made online and Roberta McCain, 97, arrived alone.

Senator McCain was informed by tvi24.pt about this accident. The mother of Arizona senator is very well known in USA for her vitality and for her love for travelling."

O artigo pode ser consultado aqui 

De notar que desta notícia está ausente um pormenor que vem na notícia em português: o Hotel Borges tem apenas duas estrelas e uma diária de 75 euros... e que a senhora estava hospedada no quarto 202... Nenhum destes pormenores teria muita importância se não soubessemos que John MacCain, segundo este artigo, declarou "little more wealth than when he started in politics. With his book royalties and radio-appearance fees donated to charity, McCain's Senate salary of $169,300 and Navy pension of about $56,000 are his only significant sources of income. He has accounts at two banks with his wife worth up to $15,000 each, according to his most recent financial disclosure report". Pode não ser muito, mas já podia pagar um hotelzito melhor à mãe.

21 Outubro 2009

Bon voyage!

Finalmente iguais sob a mesma desgraça

Encontramo-nos casualmente na rua quando chovia
E sei que preferias partir comigo a ficar aí, a mexer nesse pó
De gesso e a abrir buracos nos tectos das casas para chegar ao céu
E o entubar até às paredes respiratórias. No desencontro
Desta hora, são horas de terminar a digestão e o cigarro e voltar
A pegar nas ferramentas: a ti a mais completa poesia da destruição
E a arte de fazer de conta que o trabalho se faz rápido, eficaz;
Para mim, a caneta fraca e cobarde, a câmara clara das minhas memórias
E uma mochila pesada e inútil como uma carapaça mole. Sabes
Que podíamos percorrer estas ruas húmidas pelas primeiras chuvas
Como uma mulher que se entrega; sabes que podíamos transfigurar
Este granito, todo este peso imenso, nos corpos femininos que nos escapam
Às mãos rudes com que os buscamos; sabes que podíamos fazer
Desta cidade a impossível mulher, puta e santa na perfeita medida do desejo.
Meu irmão, resta fazer as contas ao que nos sobra depois de nos roubarem
O coração produtor e acreditar que dias melhores serão possíveis; que, um dia,
Voltaremos todos a falar a mesma língua e as mãos voltarão à sua pureza inicial,
Longe dos árduos cabos das picaretas e dos maços, do corpo rugoso dos escopros
E das cicatrizes do trabalho. Ainda que penses o contrário, preferia muito mais ter
O meu cabelo sujo com o pó do cimento e do gesso, a t-shirt manchada de tinta
E essas mãos cicatrizadas que agora escrevem noutro papel, noutra hora de trabalho
Nocturna ou que se arrastam cansadas pelos sonhos de uma vida melhor, destruindo
A superfície menos dura dos livros. Acredita que dias melhores serão possíveis,
E que o sol brilhará e o pó das casas não se agarrará a ti e que os teus dedos não serão
Mais feitos de metal. Caso o boletim metereológico erre a sua previsão, haverá chuva
Para nos molhar a ambos, a todos, finalmente iguais sob a mesma desgraça.

20 Outubro 2009

Pergunta-te

Pergunta-te:
porque continuam as autoestradas
cobertas de sangue? porque somos
dez milhões seiscentos e dezassete mil quinhentas e setenta e cinco
pessoas diferentes e só pediram seis milhões de vacinas contra a gripe A
e destas só chegaram três milhões? e o que são
as vacinas? quem nos ensinou a temer tão rapidamente?
quem será escolhido, fora da retórica da assessoria pública, 
para beneficiar com tudo isto? quem morrerá, assim, a frio
e em redondas palavras que passam inexpressivas ao lado da dor?
quem paga o meu medo? o nosso medo? (o medo de todos para todos
- o supremo bem democrático; o valor televisivo.)
quem paga as mãos vazias e o medo dos meus pais? quem nos comprou? 
a quem pertenço? que desinfectante devo usar para limpar a minha pele do medo? 
que me inocularam? estarei mesmo em perigo? precisarei mesmo de recear 
a minha sombra? serão todos os estrangeiros terroristas? e se forem, 
será que o primeiro-ministro inglês é? e o barack obama? e o berlusconi? 
o que fazer a tanta frustração, aos cadáveres de mim que apodrecem como sonhos
enterrados em pântanos? solitários fósseis numa noite petrolífera, seremos apenas um bem 
económico, um material bidireccionado reduzido ao longo de uma vida a comprador 
e matéria-prima? que animais me alimentam? o que devo comer e o que devo pensar 
agora que ninguém me diz nada? quem sou? o que sou agora? o que serei amanhã? 
de onde vim? (de onde vim eu sei, e sei o que me trouxe - doi-me é não saber 
para onde me querem levar, em que espécie de monstro me querem tornar, 
frágil reflexo do teu rosto, e do teu, e do teu também quando olhas estas linhas 
feitas memória feita de perguntas impronunciadas e de desilusões. o círculo 
da nossa prisão vai a meio: será que quando o anel se fechar em volta do teu tornozelo
ainda te conseguirás reconhecer? terás medo de sair e do teu reflexo no rosto de outro?)
por isso pergunta-te:

terás mesmo motivos para confiar no que ouves, em tudo o que te fazem dizer e ver?

 e lembra-te das respostas.

17 Outubro 2009

Sei que outros serão teus

Então, já aqui chegamos: tu forçando a cena
Do ódio e eu tentanto manter a memória
Dos dias viva. No princípio eram os nomes
Com que se definia a descoberta, os corpos
Escondidos em casas estranhas e vazias;
Depois foi a sua confusão e chegaram os verbos:
Era preciso fazer, agir, pensar, ganhar e sobreviver
E depois de tudo ficamos quietos e emudecidos
Como coisas sem nome nem acção; o tempo
E a solidão relativizando tudo: as palavras e a força.
Tão pouco tempo passado e já mão nocturnas
Começam a explorar o pesadelo destas noites
Quando parece que nos começamos a afastar
Há muito, mesmo quando os dias pareciam brilhar
E nós estavamos como crianças acomodadas
No vigor perene da juventude. 

Sei que outros serão teus
E te abraçarão pela cintura fina para te prenderem
À cama em noites mais memoráveis onde braços
Vão sentir o peso do teu corpo, o brilho solar
Da tua pele e, vendo bem, talvez eles sejam melhores
E tenham melhores horários para te amar.
A mim restam-me as ruas, a jangada de pedra
Onde me agarro às coisas materiais e vivas e tento
Resistir ao tédio, à vida normal e cíclica. Preciso de afogar
A dor do corpo morto que arrasto, febril e suado, pela noite
- Pelas mil noites em que me perco e volto a encontrar.
Outros marcarão o teu corpo, deixarão nele o seu cheiro,
O sulco poluído do seu sexo e as marcas das suas mãos
E ele perderá as minhas formas e eu perderei as tuas
E seremos ambos outros, desmemoriados sem amor
Esperando um dia melhor para conseguir voltar a encontrá-lo.

13 Outubro 2009

O som para hoje

De regresso a um passado de que não fizemos parte - mas não deixa de ser engraçado

Horas vazias

Senta-se vazio atrás de uma chávena
Vazia sobre uma mesa que, não fosse
A chávena e o homem, estaria vazia. Lê
O horizonte predial com os olhos agitados
E indecifráveis, atento às vibrações do ar.

Portanto, o homem vazio atrás da chavena
Vazia olha o vazio e sente-o. Até aqui nada
Se passa excepto as horas marcadas pelas
Cervejas e o correr simples da caneta e
O alheamento de quem não pertence ao mundo.

Um vulto magro chega, altivo sob o mercúrio
Das luzes da nossa noite e ilumina outros olhos.
Afinal, o homem vazio sentado atrás da chávena
Vazia esperava a sua incerta substância.

Casal a uma mesa de restaurante romântica e devidamente iluminada por velas

O bolso produz a carteira com um passe de mão.
Certeira, encontra uma nota... depois outra.
Setenta euros pagam a conta e ainda trazem
troco. Depois, permanecem silenciosos à mesa,
Bebendo o vinho demasiado caro
E vendo as velas a derreter.

O livro

abre-me como se eu fosse feito de páginas
soltas que só a estranheza da cola industrial
aglutinou e tornou uno. abre-me com o gume
afiado do x-acto, recupera a minha individualidade;
as estranhas palavras que tenho para oferecer
e, quem sabe,
talvez baralhes quem eu sou até ser algo novo.

12 Outubro 2009

A machadada na vida social

Infinite down

07 Outubro 2009

Temos a agradecer à televisão

Nunca nos podemos esquecer
Do quanto temos a agradecer à televisão:
Graças a ela, e a quem a controla, julgamos
Conhecer o mundo, julgamos saber a ciência
Que nos move ordeiramente pelo espaço e tempo;
Julgamos conhecer o súbtil perfume da realidade.
Vejam só que hoje, num programa aprovado
Em concelho de administradores, soube e apreendi
Que há peixes criados em viveiros que são vacinados
Para não levarem bactérias e outras doenças às nossas
Delicadas e civilizadas bocas. Quanto às pessoas que vi
Noutro programa (e que morrem todos os dias como percevejos
Que não são economicamente viáveis para crescer em viveiros
Controlados) não sei se existem mesmo... devem estar a enganar-me.
Com certeza já foram testadas e vacinadas para não matarem
De doenças quem se alimenta da fraqueza da sua carne.

Sou apenas um entre muitos

Sou apenas um, entre muitos que te atravessaram
Sem deixar uma marca nos dias que eram passados
A olhar os cádaveres da civilização a inchar sob o sol.

Agora só resta esperar que tudo isto seja um sonho e que,
um dia, se reencontrem os passos; os ecos uniformes das vozes
Na magnética procura do rumo perdido,
Ou desencontrado, sem bússola ou mapa,
        Nós todos perdidos de facto,
Sem meios ou um significado maior para esta viagem.

Depois de tanto tempo, as tatuagens já se afundaram na pele
Como um carcinoma de fantasmas, como uma rotina tóxica
Em que se ressuscitam os fantasmas e o corpo entediado
Onde existimos - escapando com milhares de mensagens
Inúteis que nos resumem aos olhos dos outros. A história,
E a sua cicatriz, é curta e indiferente como uma dança com o demónio.

Hoje vou viver. Amanhã,
Já nada restará entre as cinzas frias do contentamento.

04 Outubro 2009



a blast from the past

03 Outubro 2009

Pés descalços


Contra todas as expectativas animais crescemos
Sobre a areia do tempo. Do nada ganhamos a forma
Da pele e a luz da mente e durante séculos retiramos
O sustento das árvores da terra e do ocasional sangue.
Se olharmos bem agora, como ossos, palavras
Despontam das ruínas e é nelas que ferimos os pés
Descalços por tão longa e vaga caminhada de história
Devorada pela mesma terra que nos alimentou.

Nesta paisagem de dentes, metálicos edifícios
Mudos e instáveis crescem frágeis como nós
Com as nossas doenças psicológicas, com o nosso soro
Mediático para a insónia e para a solidão.
O céu é da televisão e para as telecomunicações
De tempos de paz e de guerra e é um mar onde ondas
Magnéticas, radiofónicas, ultrasónicas politraumáticas
Tratam de nós e nos dão um significado para viver
Mais um dia, apenas mais um dia é tudo o que preciso.

Depois de milénios a passar fome e a contar
Os trocos vamos aproveitar agora e devorar
Até à inconsciência ruminante. Não esquecer:
Uma fila única; pedir tudo o que as cores anunciantes
Dizem ao cérebro que traduz para a gula que pede mais
Do que deseja; pagar contando os trocos; comer olhando
Em volta da zona de alimentação em fórmica vendo bem
Quem vive nas jaulas ao lado da tua; despejar o tabuleiro
Individual e desinfectado e colocar sobre os outros;
Sair gordo e com fome, pronto para ser abatido.

Agora no exterior, mas ainda dentro de uma jaula,
São estes pés que nos movem em linhas paralelas
Onde nos vemos sem ponto fixo algum na recta
Para o encontro. Estamos há muito fechados, selvagens
Domésticos que perderam a compreensão do espaço
         Aberto
Longe das fronteiras impostas por outros corpos.

02 Outubro 2009

Quando as noites são um empréstimo

Quando as noites são um empréstimo
a cobrar noutras noites

é isto que temos: ruas plenas de pessoas
orquestrando o seu ruído - nada; a leveza
de um ombro livre para chorar as desilusões
e um mundo a prazo onde nos deixam viver.

30 Setembro 2009

Ali estava ela

E ali estava ela:
Sustida pela balaustrada
Inoxidável da pastelaria.
E era assim que ela estava:
O sol cobrindo de luz o rosto
Bissectado pela sombra da paragem;
O gesso da mão esquerda rezando nervoso
Sobre o calor da direita e o seu afagar distraído;
O cabelo negro de alguma idade e oleoso, cortado;
A roupa, velha como ela gasta. Quando a aproximação
Se concretiza e os olhos falam a outros olhos, ela olha a sombra
Do horizonte turvo pelas lágrimas fáceis dos velhos.
Porque é que ela chorava?
Não sei... não lhe perguntei e segui caminho.

As ferramentas da corrupção

A cerveja e o fumo;
A mesa plana
        Como um mapa;
O aquoso turbilhão da folha;
As ocasionais companhias
        Duvidosas
- Eis, alinhadas, as ferramentas
        Da corrupção.